terça-feira, 6 de março de 2012

Introspecção



Apesar de não sorrirmos desde uma manhã qualquer, em que acordei a teu lado, ficou-me na boca um tragozinho a esse sorriso. Como se os sorrisos tivessem sabor e me tivesses deixado o teu, antes de te ires embora, antes de dizeres que me amavas, antes até de eu te ver desaparecer na escuridão que ficava para lá da porta. 
Sei que o coração murmurou, mas na altura não o ouvi.
Levei os dedos aos lábios como que para calar a tua ausência. Senti nos lábios o sabor dos sorrisos que me ofereceste, e na pele o odor inigualável a ti.
Sentia-me cansada. Não percebia bem porquê, e também não tentei perceber. Por vezes preferimos nem saber a verdadeira essência das coisas; a maior arma do ser humano, é mesmo poder escolher entre a lucidez introspectiva e a inconsciência.
Era um cansaço mental, que, estranhamente, me invadia a alma; reparei que estava estranha, fora do normal, como se a alma se pudesse revoltar e vingar-se em mim, no meu corpo, aproveitando algum momento da sua coexistência diária. Apesar disso eu sorri, quando pensei em ti.
Havia uma vontade enorme de sono, no corpo... e um desejo íntimo de não pensar na alma, na sua revolta, no seu desassossego. Podia descansar e acordar sem alma, não precisava dela de qualquer forma. Nem sabia bem a que é que chamavam alma.
Sorridente e um tanto ou quanto inquieta, deixei-me adormecer. Os meus sonhos foram toldados por cores assustadoramente escuras e por lágrimas brilhantes e duras, parecidas com diamantes, que me queimavam o rosto e me arrefeciam o corpo, semi-adormecido; a minha silhueta pálida e fria, sobressaía no meio daqueles lençois negros que sabiam aos teus sorrisos e a pesadelos indesejados.
Conseguia ver-me, mas não me reconhecia... Esqueci o meu nome, o som da minha voz, o bater compassado do meu coração. Eu, não era eu. E a luz que pousava nas paredes frias, doía-me nos olhos. Ardía-me na pele. Esmagava-me por dentro. Mas eu não sabia porquê. E desta vez, não era retórica, precisava mesmo de saber porquê.
Foi então que aprendi a escutar os murmúrios do coração...


● filipajoão ~ ©



2 comentários:

Pedro F disse...

acho que escreves lindamente, talvez um tanto ou quanto confuso, porque intensificas as palavras e como diz a musica leva-las "ao expoente da loucura". mas o resultado final, muito bem conseguido. excelente começo.

Anónimo disse...

Olha eu gostei muito da intensidade que tens, me fez lembrar da escritora "Clarice Lispector" gosto muito do estilo...um abraço.